Raphael LullisComo Produzir Riquezas(Essa é uma tradução de um artigo original de Paul Graham.) Se você quisesse ficar rico, como é que você faria? Eu acredito que sua melhor aposta seria a de começar ou se juntar a uma startup. A palavra "startup" data dos anos 60, mas o que acontece dentro de uma é muito similar às caravanas de negócios financiadas por empreendedores na Idade Média. Startups costumam lidar com tecnologia, a ponto de tornar a frase "startup de alta tecnologia" quase redundante. Uma startup é uma empresa que se envolve com um problema técnico muito difícil. Muitas pessoas ficam ricas sem saber muito mais que isso. Você não precisa conhecer as leis da Física para ser um bom arremessador de beisebol, mas conhecer os princípios básicos pode te dar uma vantagem. Por que as startups têm que ser pequenas? Uma startup vai deixar de ser uma startup a medida que cresce? E por que eles frequentemente trabalham com o desenvolvimento de novas tecnologias? Por que há tantas startups vendendo novas drogas ou software de computador, mas nenhuma vendendo óleo de milho ou detergente em pó? A PropostaEconomicamente, você pode considerar uma startup como uma forma de comprimir toda a sua vida produtiva em alguns poucos anos. Ao invés de você trabalhar a uma pequena intensidade durante 40 anos, você trabalha o máximo possível por quatro. Isso recompensa especialmente melhor em tecnologia, onde há um prêmio por se trabalhar rapidamente. Aqui está um pequeno rascunho da proposta econômica. Se você for um bom hacker com 20 e poucos anos, você é capaz de conseguir um emprego que lhe pague $80.000 dólares por ano. Assim, em média, um hacker deve ser capaz de produzir um valor de ao menos 80 mil dólares por ano para que a empresa possa ao menos recuperar o dinheiro. Você - como um empregado corporativo - pode até ser capaz de trabalhar o dobro de horas, e se você se concentrar é capaz que você de realizar três vezes mais trabalho por hora. [1] Você pode conseguir um outro múltiplo de 2, pelo menos, ao eliminar a pentelhação do supervisor que seria o seu chefe em uma empresa. Há ainda mais um múltiplo: o quão mais esperto você é do que a expectativa da descrição da sua posição? Suponha que outro múltiplo de três. Combine todos esses multiplicadores, e eu estou dizendo que você pode ser 36 vezes mais produtivo do que você pode ser em um emprego qualquer. [2] Se um hacker razoavelmente bom vale 80 mil dólares por ano em uma empresa grande, então um hacker esperto trabalhando duro sem qualquer lixo do mundo corporativo atrapalhando-o deveria ser capaz de realizar trabalho que valha cerca de 3 milhões por ano. Assim como qualquer conta feita por cima, essa tem muita margem de erro. Eu não defenderia os números que coloquei. Mas eu mantenho a estrutura do meu cálculo. Eu não defendo a idéia que o multiplicador seja exatamente 36, mas certamente é maior do que 10, e raramente pode chegar até 100. Se 3 milhões por ano parece muito, lembre-se que estamos falando do caso limite: você só não tem nada de tempo de lazer, mas trabalha tanto que põe a sua saúde em perigo. Startups não fazem mágica. Elas não criam as leis de criação de riquezas. Elas apenas representam um ponto no extremo de uma curva. Há uma lei de conservação aqui: se você quer ganhar um milhão de dólares, você tem que suportar o equivalente a um milhão de dólares em sofrimento. Por exemplo, uma maneira de ter um milhão de dólares é trabalhar no correios por toda a sua vida e economizar cada centavo que você receber de salário. Imagine o stress que é trabalhar nos correios por 50 anos. Em uma startup você comprime todo esse stress para três ou quatro anos. Há uma tendência de se ganhar um certo desconto pois você está comprando o pacote de sofrimento no atacado, mas não há como escapar da lei de conservação. Se abrir uma startup fosse fácil, todos estariam fazendo isso. Milhões, não BilhõesSe $3 milhões por ano parece ser muito para algumas pessoas, pode até parecer pouco para outras. Três milhões? Como faço para ficar bilionário como Bill Gates? Vamos tirar Bill Gates da história, por ora. Não é uma boa idéia usar pessoas ricas como exemplo, pois a imprensa costuma escrever apenas sobre os muitos ricos, e esses tendem a ser casos extraordinários. Bill Gates é uma pessoa esperta, determinada e trabalhadora, mas você precisa mais do que isso para ter tanto dinheiro quanto ele. Você precisa também ter muita sorte. Sorte é um fator de muito peso para determinar o sucesso de uma empresa. Assim, as pessoas que você está acostumado a ler nos jornais são os muito espertos, totalmente dedicados e ganharam a loteria. Certamente Bill Gates é esperto e dedicado, mas a Microsoft por acaso também foi a maior beneficiária de um dos maiores furos na história corporativa: o acordo de licenciamento para o DOS. Sem dúvida Bill fez todo o possível para levar a IBM a cometer esse furo e fez um excelente trabalho ao explorar essa falha, mas se houvesse uma pessoa com miolos na IBM, o futuro da Microsoft seria bem diferente. A Microsoft tinha muito pouco poder de barganha sobre a IBM. Eles eram, na prática, um fornecedor de componentes. Se a IBM tivesse requisitado um contrato de licença exclusiva, como deveriam ter feito, a Microsoft teria assinado o contrato de qualquer forma. Teria sido um bom dinheiro para eles, e a IBM poderia ir conseguir um sistema operacional em outro lugar. Ao invés disso, a IBM acabou usando todo o seu poder no mercado para dar a Microsoft o controle sobre o padrão PC. A partir daquele ponto, tudo que a Microsoft tinha que fazer era partir pra ação. Eles nunca tiveram que apostar a empresa em uma decisão arrojada. Tudo que eles fizeram foi manter a linha-dura com os licenciadores e copiar os produtos mais inovadores de forma razoavelmente rápida. Se a IBM não tivesse cometido esse erro, a Microsoft ainda seria uma empresa de sucesso, mas não teria crescido tanto em tão pouco tempo. Bill Gates seria uma pessoa rica, mas estaria em algum lugar na rabeira da lista dos Forbes 400, com pessoas da idade dele. Há muitas formas para ficar rico, e esse ensaio é apenas sobre uma delas. Esse ensaio é sobre "como ficar rico criando riquezas e sendo pago para fazê-lo". Há inúmeras outras formas de se ganhar dinheiro, incluindo sorte, especulação, casamento, herança, roubo, extorsão, fraude, monopólio, lobby, falsificação e grilagem. A maior parte das grandes fortunas do mundo provavelmente envolveram muitos desses. A vantagem de criar riqueza como forma de se ficar rico é que, não só é mais legítimo (muitos dos outros métodos são ilegais) mas também é um meio mais direto. Você apenas tem que fazer algo que as pessoas desejam. Dinheiro não é o mesmo que RiquezaSe você quer criar riquezas, é bom que você entenda o que é "riqueza". Riqueza não é o mesmo que dinheiro. [3] Riqueza é tão antigo quanto a história do homem. Bem mais velha, na verdade. Formigas possuem riquezas. Dinheiro é uma invenção relativamente recente. Riquezas são as coisas fundamentais. São as coisas que queremos: comida, roupas, brinquedinhos eletrônicos, viagens a lugares interessantes e assim por diante. Você pode ter riqueza sem ter dinheiro. Se você tivesse uma máquina mágica que pudesse ao seu comando fazer um carro para você, ou cozinhar o seu jantar, ou lavar a sua roupa, ou fazer qualquer outra coisa que você quisesse; não precisariamos de dinheiro. Da mesma forma, se você estivesse no meio da Antártida, onde não há nada para ser comprado, não importaria quanto dinheiro você tem. São riquezas o que você quer, não o dinheiro. Mas se isso é algo tão importante, por que todos falam em "ganhar dinheiro"? É um atalho: dinheiro é uma forma de se mover riquezas, e na prática são comumente trocados um pelo outro. Entretanto, eles não são a mesma coisa, e ao menos que você esteja planejando ficar rico falsificando dinheiro, falar em fazer renda dificulta a compreensão de como se ganha dinheiro. Dinheiro é um efeito colateral da especialização. Em uma sociedade especializada, você não é capaz de produzir a maior parte das coisas que você precisa. Se você quer uma batata, ou um lápis, ou um lugar para viver, você tem que conseguir com uma outra pessoa. Como você faz com que a pessoa que cultiva batatas lhe dê algumas? Dando em troca algo que ele queira. Mas você não consegue ir muito longe trocando coisas diretamente com as pessoas que precisam. Se você produz violinos e nenhum dos fazendeiros locais quer um, como você vai poder comer? A solução que as sociedades encontraram, a medida em que se tornam mais especializadas, é fazer com que esse seja um processo de duas etapas. Ao invés de trocar violinos por batatas, você troca por, digamos, prata, a qual pode ser trocada por qualquer outra coisa que você queira. O intermédio - o meio de troca - pode ser qualquer coisa que seja rara e portátil. Historicamente, metais eram o meio mais comum, mas recentemente usamos um meio de troca - chamado dólar - que não existe fisicamente. Funciona como um meio de troca, entretanto, por ter sua raridade garantida pelo Governo Americano. A vantagem de um meio de troca é que faz com que o comércio funcione. A desvantagem é que ele ofusca o verdadeiro significado do comércio. Geralmente se pensa que o que uma empresa faz é dinheiro. Porém, dinheiro é o estágio intermediário para qualquer coisa que as pessoas queiram. O que uma empresa realmente faz é produzir riquezas. Elas produzem algo que as pessoas queiram. [4] A Falácia do BoloUm número surpreendente de pessoas mantém a idéia da infância em que há uma quantidade fixa de riqueza no mundo. Realmente há, em qualquer família normal, uma quantidade fixa de riqueza em um dado momento. Mas são idéias diferentes. Quando se fala de riqueza nesse contexto, sempre se usa a descrição do bolo. "Não se pode aumentar o tamanho do bolo", dizem os políticos. Quando se está falando da quantidade de dinheiro na conta corrente de uma família, ou da quantia arrecada pelo governo em um ano, isso é verdade. Se uma pessoa ficou com mais, outra teve que ficar com menos. Lembro-me de acreditar, quando criança, se alguns poucos ricos concentrassem todo o dinheiro haveria menos para os outros. Muitas pessoas continuam acreditar nisso até a idade adulta. Essa falácia aparece quando se ouve alguém falando sobre o fato de x por cento da população ter y por cento da riqueza. Se você planeja ter a sua startup, então você está planejando derrubar a Falácia do Bolo, mesmo sem saber disso. A abstração do dinheiro é que confunde as pessoas. Dinheiro não é riqueza. É apenas algo que é usado para movimentar riqueza. Embora possa existir em certos momentos específicos (sua família, o mês corrente) uma quantidade de dinheiro disponível para se fazer trocas com outras pessoas pelas coisas que você quer, não há uma quantidade fixa de riqueza no mundo. Você pode criar mais riqueza. Riqueza tem sido criada e destruída (no saldo total, criada) em toda a história da humanidade. Suponha que você tem um carro velho. Ao invés de ficar coçando durante suas férias, você pode passar parte do seu tempo restaurando o carro. Fazendo isso, você estará criando riqueza. O mundo está - e você, especialmente - mais rico em um carro novo. E isso não é uma frase metafórica. Se você vender o seu carro, você vai conseguir um valor maior por ele. Ao restaurar o carro, você se tornou mais rico. Não fez com que ninguém ficasse mais pobre. Obviamente, não há um bolo de tamanho fixo. Na verdade, se você encarar dessa forma, você deve se perguntar por que alguém acreditaria que tal bolo existiria. [5] Crianças sabem, sem saber, que podem criar riqueza. Se você precisa dar um presente a alguém e não tem dinheiro, você faz um presente. Porém crianças são tão ruins na manufatura que presentes feitos em casa são considerados um tipo distinto, inferior, se comparado a um presente comprado em uma loja - como se fosse uma simples expressão do ditado em que a intenção é o que importa. De fato, os cinzeiros tortos que fizemos para nossos pais não tem muito valor de revenda. ArtesãosAs pessoas que têm maior chance de entender que riquezas podem ser criadas são os que são competentes na manufatura, os artesãos. Seus objetos feitos à mão são os que vão ser vendidos nas lojas. Entretanto, com o crescimento da industrialização há cada vez menos e menos artesãos. Um dos poucos grupos que ainda restam são os programadores de computador. Um programador pode sentar na frente de um computador e criar riqueza. Um bom software é, por si, uma coisa valiosa. Não há manufatura que torna a questão confusa. Esses caracteres que são digitados são um produto completo, acabado. Se alguém sentasse e escrevesse um navegador web que não fosse um lixo (uma boa idéia, por sinal), o mundo seria um lugar muito mais rico. [5b] Todos em uma empresa trabalham conjuntamente para criar riqueza, no sentido de fazer coisas que as pessoas querem. Muitos dos empregados (e.g as pessoas que cuidam de correspondências ou no departamento de pessoal) trabalham em um que tiram as pessoas do real processo de manufatura das coisas. Não os programadores. Eles literalmente pensam no produto, uma linha de cada vez. E assim é claro para os programadores que riqueza é algo que é criado, ao invés de distribuído como fatias de um bolo entregue por um pai imaginário. Também é óbvio para os programadores que há enormes variações na taxa a qual a riqueza é criada. Na Viaweb nós tinhamos um programador que era um monstro de produtividade. Eu lembro quando eu o assisti por um dia e ter estimado que ele adicionara centenas de milhares de dólares ao valor de mercado da empresa. Um grande programador, numa tacada só, pode criar milhões de dólares em riqueza em umas poucas semanas. Um programador medíocre pode no mesmo período, gerar nenhuma riqueza, ou até mesmo destruí-la (ao introduzir bugs). É por isso que muitos programadores são liberais. No nosso mundo, você sobrevive ou afunda, e não há desculpas. Quando aqueles que são removidos do trabalho de criação de riqueza - estudantes universitários, reporteres, políticos - escutam que os 5% mais ricos do mundo têm metade de toda a riqueza, eles costumam pensar "Injustiça!" ao passo que um programador experiente é mais propenso a pensar "é só isso? Os programadores entre os top 5% provavelmente escrevem 99% de todo bom software". Riqueza pode ser criada sem ser vendida. Cientistas, até recentemente, doavam toda a riqueza que criavam. Somos todos mais ricos por conhecer a penicilina, pois somos menos propensos a morrer de infecções. Riqueza é qualquer coisa que as pessoas querem, e não morrer é algo que queremos por certo. Hackers costumam doar parte do seu trabalho escrevendo software open source que qualquer um pode usar de graça. Eu sou um tanto mais rico graças ao sistema operacional FreeBSD, que está rodando no meu computador nesse exato momento, assim como o Yahoo, que o roda em todos os seus servidores. O que é um EmpregoEm países industrializados, as pessoas pertencem a uma instituição ou outra até seus vinte e poucos anos. Depois de todos aqueles anos você se acostuma com a idéia de pertencer a um grupo de pessoas que acordam de manhã, vão para um ou outro conjunto de edifícios e fazem coisas que eles, normalmente, não gostam de fazer. Pertencer a tal grupo se torna parte de sua identidade: nome, idade, papel, instituição. Se você tem que se apresentar a alguém, ou se outra pessoa te descreve, será algo assim: João da Silva, 10 anos de idade, estudante da escola fundamental tal e tal; ou João da Silva, 20 anos de idade, estudante da Universidade tal e tal. Quando o João da Silva acabar a escola, espera-se que ele vá arrumar um emprego. Arrumar um emprego é parecido com a idéia de se filiar a uma outra instituição. Superficialmente é muito parecido com a faculdade. Você escolhe as empresas para a qual quer trabalhar e se candidata a uma vaga. Se alguma lhe aprovar, você se torna um membro desse novo grupo. Você acorda de manhã e vai para um novo conjunto de edifícios e faz coisas que, normalmente, não gosta de fazer. Há algumas diferenças: a vida não é tão divertida, você recebe dinheiro ao invés de pagar uma mensalidade. Mas as similaridades são maiores que as diferenças. João da Silva, 22, é agora um desenvolvedor de software da corporação tal e tal. Na verdade a vida do João da Silva mudou muito mais que ele se dá conta. Socialmente, uma empresa parece muito com uma universidade, mas quanto mais você se afunda na realidade subjacente, mais diferentes as coisas ficam. O que uma empresa faz e precisa fazer se quiser continuar a existir é ganhar dinheiro. E a forma que a maior parte das empresas ganha dinheiro é criando riqueza. Empresas podem ser tão especializadas que essa similaridade fica escondida, mas não são apenas as empresas de manufatura que criam riquezas. Um grande componente no valor da riqueza é sua localização. Lembra-se da máquina mágica que poderia lhe criar carros e fazer o seu jantar? Ela não seria tão útil se entregasse o seu jantar em algum lugar da Ásia Central. Se riqueza é algo que as pessoas querem, empresas que movem coisas também criam riquezas. Idem para outros tipos de empresas que não fazem nada físico. Todas as empresas existem para fazer algo que as pessoas querem. E é isso que você faz, também, quando você vai trabalhar em uma empresa. mas aqui está uma outra camada que ofusca a realidade por trás da história. Em uma empresa, o trabalho que você faz é calculado pela média de todas as pessoas. Você pode nem mesmo estar ciente que está fazendo algo que as pessoas querem. Sua contribuição pode ser indireta. Porém, a empresa como um todo deve estar fazendo algo que as pessoas querem, ou elas não estariam ganhando dinheiro por isso. Com uma empresa te pagando x dólares por ano, na média você deve estar contribuindo com ao menos o equivalente a x dólares de trabalho, ou a empresa está gastando mais do que ganha, e encerrará o negócio. Alguém que está se formando pensa (e outros também lhe dizem) que precisa arrumar um emprego, como se a coisa importante fosse o fato de se tornar membro de uma instituição. Uma forma mais direta de dizer seria: você precisa começar a fazer algo que as pessoas queiram. Você não precisa se juntar a uma empresa para fazer isso. Uma empresa não passa de um grupo de pessoas trabalhando em conjunto para fazer algo que as pessoas querem. É o ato de fazer algo que as pessoas querem que importa, não o de se juntar ao grupo. [6] Para a maior parte das pessoas o melhor plano é provavelmente ir trabalhar para alguma empresa que já exista. Mas é uma boa idéia parar para entender o que está acontencendo quando você faz isso. Um emprego significa fazer algo que as pessoas querem, posto em média com todos na empresa. Trabalhando MaisCalcular a produtividade pela média se torna um problema. Acredito que o maior problema que afeta as grandes empresas é a dificuldade de atribuir um valor para o trabalho de cada pessoa. Na maioria das vezes, eles estão chutando. Em uma empresa grande você recebe um salário medianamente esperado para um trabalho razoavelmente duro. Espera-se que você não seja visivelmente incompetente ou preguiçoso, mas não se espera que você dedique toda a sua vida ao trabalho. Acontece, entretanto, que surgem economias de escala ao aumentar o quanto você dedica a sua vida ao trabalho. No trabalho adequado, alguém que realmente se dedique ao trabalho pode gerar dezenas ou centenas de vezes mais riquezas que o empregado médio. Um programador, por exemplo - ao invés de ficar em banho-maria fazendo a manutenção e atualizando um software que já existe -, poderia desenvolver um software completamente novo, e com isso criar uma nova fonte de renda. Empresas não estão organizadas para recompensar as pessoas que queiram fazer isso. Você não pode chegar ao seu chefe e dizer "Eu gostaria de trabalhar 10 vezes mais, será que você poderia me pagar 10 vezes mais?". Antes de tudo, a idéia que se tem é que você já está trabalhando no limite de sua capacidade. Mas um problema ainda maior é que a empresa não tem meios para medir o valor de seu trabalho. Vendedores são a exceção à regra. É fácil medir o quanto de renda eles trazem, e geralmente são pagos percentualmente. Se um vendedor quiser trabalhar mais ele pode, e automaticamente ele receberá proporcionalmente mais. Há um outro emprego além de vendedor no qual as empresas podem contratar pessoas de primeiro escalão: no empregos dos altos executivos. Esses são considerados responsáveis pela performance de toda a empresa. Já que um empregado ordinário não pode ter a sua performance avaliada, dele não se espera mais que um esforço honesto. Por outro lado, os altos executivos, assim como os vendedores, são responsáveis em produzir os resultados. Um CEO de uma empresa que afundou não pode alegar que honestamente fez o melhor possível. Se a empresa foi mal, ele também foi mal. Uma empresa que possa pagar a todos os seus empregados de forma direta seria enormemente bem-sucedida. Muitos empregados iriam trabalhar mais, se pudessem receber por isso. Mais importante, uma empresa que trabalhasse dessa forma atrairia as pessoas que querem trabalhar muito mais. Ela iria destruir a concorrência. Infelizmente, as empresas não podem pagar a todos da forma que paga aos vendedores. Vendedores trabalham sozinhos. A maior parte do produto do trabalho dos empregados está embaralhada no produto final. Suponha que uma empresa produza equipamentos eletronicos. Os engenheiros produzem um gadget confiável com toda a sorte de novos recursos; os designers projetam um belo exterior para o equipamento; o pessoal de marketing convence a todos que é algo que eles têm que ter. Como se determina quanto das vendas de cada gadget é devido ao esforço de cada grupo? Ou, já que deve ser levado em conta, quanto é devido aos criadores dos gadgets anteriores, que deram a empresa uma reputação de qualidade? Não há forma de desembaralhar todas essas contribuições. Mesmo que você pudesse ler as mentes de todos os consumidores, você iria ver o quanto todos esses fatores estão ligados. Se você quiser ser mais rápido, é um problema ter o seu trabalho ligado ao trabalho de um número muito grande de pessoas. Em um grande grupo, sua performance não é medida separadamente - e o resto do grupo te deixa mais lento. Métrica e AlavancagemPara ficar rico você precisa se colocar em uma situação em que possa ter duas coisas: métrica e alavancagem. Você precisa estar em uma posição onde sua performance pode ser mensurada, ou seja, onde há forma de receber mais pelo fato de fazer mais trabalho. Você também precisa de alavancagem, no sentido de poder tomar decisões que tenham um grande efeito. Medição, sozinha, não basta. Um exemplo de emprego com métrica mas sem alavancagem é trabalhando em um chão de fábrica. Sua performance é medida e você é pago de acordo, mas você não possui poder de decisão. A única decisão que você tomar é o quão rápido você pode trabalhar, e mesmo assim você só pode aumentar a sua renda pelo dobro ou triplo. Um exemplo de um trabalho com métrica e alavancagem seria o de ator principal em um filme. Sua performance é medida pela bilheteria do filme. E sua alavancagem se dá no aspecto que é sua performance que determina se o filme será um sucesso ou um fracasso. CEOs também possuem métrica e alavangem. Eles são medidos, já que a performance da empresa é a performance dele. E possuem alavancagem, considerando que suas decisões indicam qual é a direção que a empresa deve seguir. Eu acredito que qualquer um que fique rico por seus próprios esforços irão se encontrar em uma situação em que possam ter uma métrica e alavancagem. Qualquer um que eu me lembre tem: CEOs, estrelas de cinema, gerentes de fundos de investimentos, atletas profissionais. Uma boa dica quanto a presença de alavancagem é a possibilidade de fracasso. O retorno positivo deve ser equilibrado pela chance de retorno negativo; logo, se há um grande potencial de ganho deve haver uma possibilidade aterrorizante de perda. CEOs, estrelas, gerentes de fundos e atletas vivem com a corda no pescoço; o momento que começarem a fraquejar, e já eram. Se você está em um emprego no qual se sente seguro, você não vai ficar rico, pois onde não há perigo certamente não há alavancagem. Mas você não precisa se tornar um CEO ou uma estrela de cinema para estar em uma situação com métrica e alavancagem. Tudo que você precisa é fazer parte de um pequeno grupo que esteja trabalhando em um problema difícil. Tamanho reduzido = MétricaSe você não consegue medir o valor do trabalho individualmente realizado pelos empregados, você pode fazer uma aproximação. Você pode medir o valor do trabalho realizado por um pequeno grupo. Um nível no qual você pode medir a renda gerada pelos empregados é considerando a empresa como um todo. Quando a empresa é pequena, você está razoavelmente perto de medir a contribuição individual dos empregados. Uma startup viável pode ter apenas 10 empregados, o que te coloca com chance de medir o esforço individual corretamente, com um erro com ordem de 10. Montar a sua startup ou se juntar a uma é o mais próximo possível que as pessoas podem da idéia de dizer para o seu chefe "Eu quero trabalhar 10 vez mais, por favor me pague 10 vezes mais." Há duas diferenças: você não está dizendo isso para seu chefe, mas diretamente para seus clientes (no fim das contas, o seu chefe é apenas um intermediário entre você e eles), e você não está fazendo isso individualmente, mas com um outro grupo de pessoas ambiciosas. Será, provavelmente, um grupo. Exceto em alguns tipos incomuns de trabalho, como artes cênicas ou escrevendo livros, você não pode ser uma empresa de uma única pessoa. E é bom que as pessoas que vão trabalhar sejam boas, já que com o trabalho delas que o seu será avaliado e tomado pela média. Uma grande empresa é como uma galéia gigante movida por milhares de remadores. Duas coisas mantém a galéia lenta. Uma é que os remadores não vem grande vantagem em fazer mais força. A outra é que, em um grupo de mil pessoas, o remador médio tende a ser bem mediano. Se você pegar 10 pessoas aleatoriamente e tirá-las da galéia, e colocá-las em um barco menor, eles provavelmente vão ser mais rápidos. Eles teriam incentivo direto. Um remador enérgico seria encorajado pela idéia que seu trabalho pode ter um efeito visível na velocidade do barco. E se alguém for preguiçoso, os outros teriam mais chance de perceber e reclamar. Mas a real vantagem do barco de 10 pessoas aparece quando você seleciona os 10 melhores remadores e os coloca em um barco. A motivação vem do fato de se encontrarem em um grupo pequeno. Mas ainda mais importante, ao selecionar um grupo tão pequeno você pode ter os melhores remadores. Cada um faria parte do melhor percentil. É muito mais vantajoso para eles que se juntem seu trabalho com um grupo de pessoas do mesmo nível, que agregar o seu trabalho com qualquer outro. Esse é o verdadeiro ponto das startups. Idealmente, você está se juntando com um grupo de outras pessoas que também querem trabalhar um tanto mais, e ganhar um tanto mais, do que conseguiriam em uma grande empresa. E já que startups tendem a ser fundadas por grupos auto-selecionados de pessoas ambiciosas que conhecem umas às outras (ao menos por sua reputação), a qualidade da medição é maior que você conseguiria apenas em função de seu tamanho diminuto. Uma startup não são apenas 10 pessoas, mas 10 pessoas como você. Steve Jobs disse uma vez que o sucesso ou fracasso de uma startup depende dos 10 primeiros empregados. Eu concordo. Se não, é mais provável que seja os 5 primeiros. Ser pequena por ser pequena não é o que faz as startups serem o máximo, mas sim pelo fato de ser um grupo pequeno que pode ser escolhido. Você não quer uma startup que seja pequena no senso em que um vilarejo é pequeno, você quer uma startup que seja pequena como um time all-star. Quanto maior um grupo, mais o membro médio fica próximo da média geral da população. Assim, deixando todas as outras variáveis intactas, uma pessoa muito capaz em uma grande empresa provavelmente está fazendo um mal negócio, já que sua performance é arrastada para baixo devido a performance geral dos outros. Claro que nem sempre as outras variáveis são mantidas intactas: a pessoa capaz pode não se preocupar com dinheiro, ou pode preferir a estabilidade da grande empresa. Mas uma pessoa muito capaz que se preocupe com dinheiro irá frequentemente se dar melhor se sair da empresa e ir trabalhar com um grupo reduzido composto por seus pares. Tecnologia = AlavancagemStartups dão a qualquer um uma situação em que possuem métrica e alavancagem. Eles permitem medição pelo seu tamanho, e oferecem alavancagem por ganhar dinheiro ao criar novas tecnologias. O que é tecnologia? É técnica. É a forma com a qual fazemos as coisas. E quando você descobre uma nova forma de se fazer coisas, seu valor é multiplicado pelo total de pessoas que a usam. É o exemplo proverbial de ensinar a pescar, ao invés de dar o peixe. Essa é a diferença entre uma startup e um restaurante ou uma barbearia. Você só pode fritar um ovo de cada vez ou cortar o cabelo de um cliente por vez. Por outro lado, se você resolve um problema técnico que muitas pessoas se importam, você ajuda todos que usam sua solução. Isso é alavancagem. Se você olhar o passado, pode notar que a maior parte das pessoas que ficou rica através da criação de riquezas o fizeram ao desenvolver novas tecnologias. Não existe rapidez suficiente que vá resolver o problema de fritar ovos ou cortar cabelo. O que deixou os Florentinos ricos em 1200 foi a descoberta de novas técnicas para fabricar o produto high-tech da época, que era tecido fino de lã. O que tornou os Holandeses ricos em 1600 foi a descoberta de construção naval e técnicas de navegação que permitiram que eles dominassem os mares do Extremo Oriente. Use a dificuldade como um parâmetro na hora de escolher o objetivo geral de sua empresa e também nos pontos decisivos que surgem ao longo do caminho. Na Viaweb, uma dos nossos mandamentos era "suba as escadas". Suponha que você é um cara pequeno e frágil, perseguido por um valentão grande e gordo. Você abre uma porta e depara-se com uma escada. Você sobe ou desce os andares? Eu creio que o melhor é subir. O valentão vai provavelmente descer as escadas tão rápido quanto você. Subindo as escadas, entretanto, e o tamanho dele pesará contra. Subir as escadas é difícil para você mas ainda mais difícil para ele. Isso significa, na prática, que nós procurávamos os problemas difíceis deliberadamente. Se houvessem duas novas funcionalidades que podíamos adicionar ao nosso software, sendo as duas igualmente valiosas de acordo com sua dificuldade, nós sempre usávamos a mais difícil. Não só porque era mais valiosa, mas por ser mais difícil. Nós regojizávamos ao forçar que os competidores maiores e mais vagarosos nos acompanhasse em áreas difíceis. Como guerrilhas, startups preferem os complicados terrenos das montanhas, onde as tropas do governo central não conseguem chegar. Eu me lembro dos dias que estávamos exaustos ao lutar com algum terrível problema técnico. E gostava disso, pois algo que era difícil para nós seria impossível para nossos competidores. Esse não é o único modo de se executar as coisas em uma startup. Isso é o que uma startup é. Capitalistas de risco sabem disso e tem um nome para isso: barreiras de entrada. Se você for a um investidor de risco com uma nova idéia e pedir investimento, uma das coisas que ele vai perguntar é: quão difícil seria para alguma outra pessoa desenvolver isso? Isso é, quanto de vantagem no terreno difícil você tem de distância entre seus potenciais perseguidores? [7] E é melhor que você tenha uma explicação convincente do porquê sua tecnologia seria difícil de copiar. Do contrário, assim que alguma grande empresa ficar sabendo eles farão a versão deles, e com o nome, capital e canais de distribuição que possuem, eles tomarão o seu mercado de um dia para o outro. Seria tal qual as guerrilhas que são pegas em campo aberto pelo exércitos tradicionais. Uma maneira de colocar barreiras de entrada é através de patentes. Porém, patentes não dão esse tipo de proteção. Concorrentes comumente encontram maneiras de contornar uma patente. E se não encontram, eles simplesmente violam as patentes e te chamam pra briga, esperando que você os processe. Uma grande empresa não tem medo de ser processada; é rotina para eles. Eles trabalharão para estarem certos que processá-los é caro e que levará muito tempo. Já ouviu falar de Philo Farnsworth? Ele inventou a televisão. O motivo por você nunca ter ouvido falar dele é que sua empresa não foi a que ganhou dinheiro com isso. [8] A empresa que lucrou foi a RCA, e a recompensa de Farnsworth por seus esforços foi uma década de processo litigioso por quebra de patentes. Nesse caso, como em muitos outros casos, a melhor defesa é o ataque. Se você pode desenvolver tecnologia que é simplesmente muito difícil de ser duplicada pelos seus concorrentes, você não precisa confiar em outros mecanismos de defesa. Comece com um problema difícil e a cada decisão tome a escolha mais difícil. [9] A(s) Armadilha(s)Se fosse apenas uma questão de trabalhar mais para ganhar que um empregado comum e ganhar proporcionalmente, seria óbvio que que abrir uma startup é um bom negócio. De certa forma, seria até mais divertido. Não acredito que as pessoas gostem do ritmo lento das grandes empresas, as reuniões infindáveis, as fofocas, os gerentes sem-noção e assim por diante. Infelizmente, há algumas armadilhas. Uma delas é que você não pode escolher em qual ponto da curva que você quer ficar. Você não pode escolher, por exemplo, que você quer trabalhar duas ou três vezes para ser pago esse tanto. Quando você está em uma startup, seus concorrentes decidem o quanto você trabalha. E eles todos tomam a mesma decisão: tanto quanto for possível. A outra armadilha é que o retorno é apenas uma média proporcional a sua produtividade. Existe, como eu disse anteriormente, uma fator multiplicador no sucesso de qualquer empresa. Na prática, não é como se bastasse você ser 30 vezes mais produtivo para ser pago 30 vezes mais. É você ser 30 vezes mais produtivo e ser pago entre 0 e 1000 vezes mais. Se a média é 30x, a mediana é provavelmente zero. A maior parte das startups quebra, e não só os portais de comida de cachorro que ouvimos falar durante a bolha da Internet. É comum para uma startup desenvolver um produto genuinamente bom, levar um pouco de tempo demais para isso, secar o dinheiro e ter que fechar. Uma startup é um mosquito. Um urso pode absorver uma pancada e um caranguejo tem uma armadura, mas um mosquito é projetado para uma única coisa: emplacar. Nenhuma energia é gasta com proteção. A defesa dos mosquitos, como espécies, é que há muitos deles, mas há pouco consolo para um mosquito individualmente. Startups, assim como mosquitos, costumam ser uma idéia tudo-ou-nada. E geralmente não se sabe qual vai ser o resultado até o último minuto. Viaweb chegou perto de fracassar várias vezes. Nossa trajetória pareceu uma curva sendoidal. Felizmente, fomos adquiridos no topo da curva, mas por muito pouco. Enquanto estávamos visitando Yahoo na California para podermos conversar sobre a venda da empresa para eles, nós tivemos que pegar uma sala de conferência para reafirmar a um investidor que estava prestes a desistir de uma nova rodada de investimento, a qual precisávamos para nos mantermos vivos. O aspecto tudo-ou-nada de startups não era algo que queríamos. Os hackers da Viaweb todos tinham aversão ao risco. Se tvesse uma maneira de trabalhar muito e ser pago para isso, sem que a loteria estivesse no meio do jogo, nós adoraríamos. Nos preferiríamos muito mais uma chance de 100% de ganhar um milhão a uma chance de 20% de ganhar 10 milhões, mesmo que em teoria o segundo valesse o dobro. Infelizmente, não há lugar no mundo dos negócios onde exista a primeira opção. O mais perto que você pode conseguir é vendendo a sua empresa nos estágios iniciais, abrindo mão do retorno (e do risco) por um pagamento menor, porém garantido. Nós tivemos uma chance de fazer isso e, pensamos na época que foi algo estúpido, deixamos passar. Depois disso ficamos comicamente ansiosos para vender. No ano seguinte, se qualquer um demonstrasse a mínima curiosidade sobre a Viaweb nós tentaríamos vender a empresa para ele. Mas como não havia compradores, tivemos que seguir em frente. Teria sido uma pechincha nos comprar em um estágio inicial, mas as empresas que estão fazendo aquisições não estão procurando por pechinchas. Uma empresa grande o suficiente para comprar startups será grande o suficiente para ser consideravelmente conservadora, já que será provavelmente composta por tipos de uma linha mais executiva, de negócios, que se juntaram a empresa num período posterior. Eles preferem pagar a mais em troca de uma escolha mais segura. Assim é mais fácil vender uma startup estabelecida, ainda que há um premium maior, que uma em estágio inicial. Consiga UsuáriosCreio que é uma boa idéia ser comprado, se puder. Gerenciar um negócio é uma coisa bem diferente de desenvolvê-lo. É melhor que você deixe que uma grande empresa compre o seu negócio depois que você alcançar altitude de cruzeiro. É também financeiramente mais sábio, uma vez que vender permite que você diversifique. O que você pensaria de um consultor financeiro que coloque todos os ativos de seus cliente em uma ação volátil? Como você é adquirido? Basicamente, basta fazer as mesmas coisas que você faria se você não tivesse a intenção de vender a empresa. Ser lucrativo, por exemplo. Porém, ser adquirido é uma arte em seu próprio mérito, e uma que gastamos muito tempo aprendendo a dominar. Compradores em potencial vão ser demorar se puderem. A parte difícil de ser adquirido é fazer com que eles se mexam. Para a maior parte das pessoas, o motivador mais forte não é a esperança de ganhar, mas o medo de perder. Para compradores em potencial, o maior incentivo é a possibilidade que um de seus concorrentes vá te comprar. É isso que descobrimos ser o que faz com que os CEOs partam para o ataque. O segundo maior incentivo é a preocupação que, se eles não o comprarem, você vai continuar a crescer rapidamente e vai custar a ele mais para te comprar depois, ou até mesmo que você se torne um competidor. Em ambos os casos, tudo pode ser resumido aos usuários. Você imaginaria que uma empresa prestes a lhe comprar faria uma boa pesquisa e decidir por conta própria quão valiosa é sua tecnologia. Nada disso. Eles se orientam pelo número de usuários que você tem. Na prática, compradores assumem que os clientes sabem que é possui a melhor tecnologia. E isso não é tão estúpido quanto se parece. Usuário são a única prova material que você está criando riquezas. Riqueza é o que as pessoas querem, e se as pessoas não estão usando seu software, talvez não seja pelo simples fato de você ser ruim de marketing. Talvez seja pelo fato de você ter feito algo que elas não queiram. Investidores de risco tem uma lista de sinais de perigo que costumam ficar de olho. Quase no topo da lista está a empresa que é gerenciada por tecnológos que são obcecados em resolver problemas técnicos interessantes, ao invés de agradar os usuários. Em uma startup, você não está apenas tentando resolver problemas. Você está tentando resolver problemas com os quais as pessoas se preocupam. Então, eu acho que você deveria fazer com usuários fossem o seu teste, assim como os compradores estão acostumados a fazer. Trate uma startup como um problema de otimização em que a performance é medida pelo número de usuários. Assim como qualquer um que já trabalhou com otimização de software, o segredo está na capacidade de fazer medidas. Quando você tenta adivinhar onde o seu programa está devagar e pensa na solução para tentar torná-lo mais rápido, quase sempre seu palpite está errado. O número de usuários pode não ser o teste perfeito, mas é um bem próximo. É sobre isso que os compradores se preocupam. É nisso que o faturamento depende. É o que torna a concorrência miserável. É isso que impressiona repórteres e novos usuários em potencial. Certamente é um teste melhor que noções a priori de quais problemas são importantes para resolver, não importa o quão tecnologicamente apto você seja. Entre outras coisas, lidar uma startup como um problema de otimização vai lhe ajudar a evitar outra armadilha que os investidores de risco costumam se preocupar, e com razão -- levar muito tempo para desenvolver um produto. Aqui podemos reconhecer isso como algo que os hackers já sabem que devem evitar: otimização prematura. Tenha uma versão 1.0 tão cedo quanto possível. Até que você tenha usuários para fazer as medições, você está fazendo otimizações baseado em palpites. O que você precisa ficar de olho é o princípio que diz que riqueza é aquilo que as pessoas querem. Se você planeja ficar rico através da criação de riquezas, você precisa saber o que é que as pessoas querem. Pouquíssimos negócios realmente prestam atenção àquilo que deixam as pessoas felizes. Com que frequência você entra em uma loja, ou liga para uma empresa, com uma sensação de temor te incomodando? Quando você escuta "sua ligação é muito importante para nós" você pensa "ah, sim. Agora tudo vai ficar bem"? Um restaurante pode se dar ao luxo de servir uma refeição queimada, ocasionalmente. Em tecnologia, você prepara uma coisa e é tudo igual para todos. Assim qualquer diferença entre o que as pessoas querem e o que você oferece é multiplicada. Você agrada ou irrita mais cliente em atacado. Quanto mais você chega perto daquilo que é o que as pessoas querem, mais riquezas você está criando. Riqueza e PoderCriar riquezas não é a única maneira de se ficar rico. Pela maior parte da história da humanidade não foi a forma mais comum. Até uns poucos séculos atrás, a maior fonte de riquezas eram minas, escravos e servos, terra e gado. E as únicas formas de se conseguir isso era por herança, casamento, conquista ou confisco. Naturalmente, riquezas não tinham uma grande reputação. Duas coisas mudaram. A primeira foi a lei. Na maior parte da história mundial, se você conseguisse acumular riqueza de alguma forma, o regente ou seus subordinados iriam arrumar um jeito de te roubar. Porém, algo novo surgiu na Europa medieval. Uma nova classe de mercadores e artesãos começou a se aglomerar nas cidades. [10] Juntos, eles eram fortes para poder resistir aos abusos do suserano local. Pela primeira vez na história, os valentões pararam de roubar o dinheiro do lanche dos nerds. Isso já foi um grande incentivo e provavelmente a maior causa da segunda grande mudança: a industrialização. Muito já foi escrito sobre as causas da Revolução Industrial. E uma condição necessária - se não suficiente - para que as pessoas construissem fortunas foi o fato das pessoas poderem usufruir delas em paz. [11] Uma evidência disso está nos países que tentaram voltar ao modelo antigo, como a União Sovietica e a Inglaterra - em menor grau - durante o governo trabalhista dos anos 60 e início dos 70. Remova o incentivo das riquezas, e a inovação técnica pára. Lembre que uma startup significa ecnomicamente: uma forma de dizer "eu quero trabalhar mais rápido. Ao invés de acumular dinheiro lentamente através de pagamento de salário durante 50 anos, eu quero acabar com essa história o quanto antes." Qualquer governo que proibam você de acumular fortuna está na prática decretando que você trabalhe lentamente. Eles permitem que você ganhe $3 milhões em 50 anos, mas não permitem que você trabalhe tanto a ponto de conseguir fazer isso em dois. Eles são exatamente iguais ao seu chefe, o qual você não pode dizer "eu quero trabalhar 10 vezes mais, por favor me pague 10 vezes mais". Exceto que, dessa vez, você não pode fugir do chefe e abrir a sua própria empresa. O problema de trabalhar devagar não é apenas que a inovação técnica acontece devagar. É que ela tende a não acontecer em absoluto. É apenas quando você está deliberadamente procurando por problemas difíceis, tentando usar a velocidade como sua maior vantagem, que você trabalha nesse tipo de projeto. Desenvolver novas tecnologias é um pé no saco. Como disse, Edison, é algo que requer 1% de inspiração e 99% de transpiração. Sem o incentivo de riqueza, ninguém quer fazer. Engenheiros vão trabalhar em projetos sedutores como aviões-caça e foguetes espaciais por salários ordinários, mas tecnologias mundanas como lâmpadas ou semicondutores têm que ser desenvolvidas por empreendedores. Startups não são um fenômeno que simplesmente surgiu em Silicon Valley nas últimas décadas. Assim que se tornou possível ficar rico através da criação de riquezas, todos que o fizeram seguiram a mesma receita: métrica e alavancagem, onde a métrica vinha do trabalho feito por um grupo reduzido e a alavancagem era fruto do desenvolvimento de novas técnicas. A receita era a mesma na Florença de 1200 e é a mesma em Santa Clara, ainda hoje. Entender isso pode ajudar a responder uma questão importante: por qual motivo a Europa se tornou tão poderosa? Tem a ver com a sua geografia? Por acaso a raça deles era superior? Era a religião? A resposta (ou ao menos, uma razão próxima) pode estar no fato que os Europeus estavam sempre na crista de uma idéia muito poderosa: a idéia de permitir que aqueles que ganhavam muito dinheiro poderiam ficar com sua fortuna. Assim que você permite que isso aconteça, as pessoas passaram a ficar ricas criando riquezas, ao invés de roubá-las. O desenvolvimento tecnológico se traduz não só em riquezas mas também em poderio militar. A teoria que levou ao avião Stealh - impossível de ser percebido por radares - foi desenvolvida por um matemático Soviético. Entretanto, como a União Soviética não possuia uma indústria de computadores, para eles não passou de uma teoria; eles não tinham o equipamento necessário para executar os cálculos em velocidade suficiente para que pudessem projetar um avião. Nesse aspecto a Guerra Fria ensina a mesma lição que a Segunda Guerra Mundial, e até mesmo a maior parte das guerras na história recente. Não permita que uma classe regente, composta por militares e políticos esmaguem os empreendedores. A mesma receita que torna os individuos ricos faz os páises poderosos. Deixe que os nerds fiquem com o dinheiro do almoço, e você será o dono do mundo. Notas[1] Uma coisa valiosa que você costuma encontrar em startups é a ininterruptabilidade. Diferentes tipos de trabalhos possuem diferentes quanta de tempo. Alguém que está revisando um manuscrito pode ser interrompido a cada 15 minutos e terá pouca perda de produtividade. Porém o quantum de tempo para programação é muito grande: pode-se levar até uma hora apenas para se carregar um problema para sua cabeça. Assim, o custo de alguém que do departamento de pessoal te ligar devido a um formulário que você esqueceu de preencher pode ser enorme. É por isso que os hackers costumam dar um olhar raivoso no instante em que viram o rosto para responder a sua pergunta. Dentro de suas cabeças, um gigante castelo de cartas está desmoronando. A mera possibilidade de serem interrompidos impede que hackers dêem início a projetos complicados. É por isso que eles tendem a trabalhar tarde da noite, e por isso que é impossível escrever software de qualidade em um cubículo (exceto tarde da noite). Uma grande vantagem das startups é que elas ainda não possuem nenhuma das pessoas que lhe interrompem. Não há ninguém do departamento pessoal, e por isso não há ninguém que pode lhe chamar para resolver questões de lá. [2] Frente a idéia que as pessoas trabalhando em startups pode ser de 20 a 30 vezes mais produtivas do que as que trabalham em grandes empresas, executivos irão naturalmente imaginar "o que eu posso fazer para que elas trabalhem desse jeito para mim?" A resposta é simples: pague-as para isso. Internamente a maior parte das empresas são gerenciadas como estados comunistas. Se você acredita em livre mercado, por que não tornar sua empresa em um? Hipótese: uma empresa terá o máximo de lucratividade quando cada empregado é pago em proporção a quantidade de riquezas que ele cria. [3] Até recentemente até mesmo os governos não sabiam distinguir dinheiro de riqueza. Adam Smith (Riqueza das Nações, v:i) menciona que muitos tentaram preservar suas "riquezas" proibindo a exportação de ouro ou prata. Entretanto, ter muito do meio de troca não torna um país mais rico; se você tem mais dinheiro emparelhado a uma quantidade estável de riquezas, o único resultado é a elevação de preços. [4] Há muitos significados para o termo "riquezas", nem todos materiais. Eu não estou tentando provar uma questão filosófica sobre qual é o tipo verdadeiro de riquezas. Estou escrevendo sobre um tipo específico, no termo mais técnico da palavra "riquezas", que é "aquilo que as pessoas irão te dar dinheiro para conseguir". Esse é um tipo interessante para ser estudado, já que é o tipo que impede que você morra de fome. E aquilo pelo qual as pessoas te dão dinheiro depende delas, não de você. Quando você está iniciando seu negócio, é fácil fantasiar que as pessoas querem o que você faz. Durante a bolha da Internet eu conversei com uma mulher que, já que gostava de paisagens exteriores, ela estava criando um "portal de exteriores". Você tem idéia de que tipo de negócio você deveria começar se você gosta de exteriores? Um que recupere dados de hard drives que quebraram. Qual é a relação? Nenhuma, em absoluto. É exatamente esse o meu ponto. Se você quer produzir riqueza (no sentido estrito e técnico de não morrer de fome) você deveria ser cético acerca de qualquer plano que é baseado em coisas na qual você gosta de fazer. É aí que a sua idéia de fazer do que é valioso é menos provável de coincidir com a de outras pessoas. [5] Ao restaurar um carro você provavelmente está fazendo com que todos sejam microscopicamente mais pobres, ao causar uma pequena quantidade de dano ao meio-ambiente. Ao passo que custos ao ambiente devam ser levados em conta, eles não fazem com que a produção de riquezas seja um jogo de equilíbrio completo. Por exemplo, se você repara uma máquina que está quebrada por conta de um parafuso solto, você produziu riqueza sem custo ao meio-ambiente. [5b] Esse ensaio foi escrito antes do surgimento do Firefox. [6] Muitas pessoas se sentem confusas e deprimidas com vinte e poucos anos. A vida parecia ser bem mais divertida durante a faculdade. Bem, é claro que era. Não se engane por conta de similaridades superficiais. Você deixou de ser convidado para se tornar um servo. É possível que se divirta nesse novo mundo. Entre outras coisas, você agora pode entrar em portas que são "apenas para pessoal autorizado". Mas a mudança é um choque no início, e pior ainda se você não está ciente disso. [7] Quando investidores de risco perguntavam a nós quanto tempo levaria para que outra startup duplicasse o nosso software, nós costumávamos responder que eles não conseguiriam nunca. Creio que isso fazia com que nós parecessemos ingênuos, ou mentirosos. [8] Poucas tecnologias tem um inventor conhecido. Como regra, se você conhece o "inventor" de algo (o telefone, a linha de montagem, o avião, a lâmpada, o transistor) é devido a empresa ter feito muito dinheiro com isso e o pessoal de RP das empresas ter trabalhado muito para divulgar essa versão da história. Se você não sabe quem inventou algo (o automóvel, a TV, o computador, o motor a turbina, o laser), é porque foram outras empresas que lucraram com isso. [9] Esse é um bom plano para a vida, em geral. Se você tem duas possibilidades, escolha a mais difícil. Se você está decidindo entre sair para correr ou ficar em casa assistindo TV, saia para uma corrida. O motivo mais provável que esse truque funcione tão bem é que quando você tem duas escolhas e uma é mais difícil, a única razão pela qual você está considerando a outra é preguiça. Você sabe, no fundo, qual é a coisa certa a ser feita, e esse truque apenas te força a reconhecer isso. [10] Provavelmente, não é um acidente que a classe média tenha aparecido primeiramente no norte da Itália e nos países baixos, onde não haviam fortes governos centrais. Essas duas regiões eram as mais ricas do seu tempo e se tornaram os centros gêmeos de onde a civilização renascentista irradiou. Se elas não cumprem mais esse papel é por que há outros países, como os Estados Unidos, foram mais fiéis ao princípios que eles descobriram. [11] Pode até ser realmente uma condição suficiente. Mas se fosse, por que a Revolução Industrial não iniciou antes? Duas possíveis (e não incompatíveis) respostas: (a) ela iniciou antes. A Revolução Industrial foi apenas uma em uma série. (b) Porque nos vilarejos medievais, monopólios e a regulação das lojas de ofícios inicialmente retardaram o desenvolvimento de novos meios de produção.
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